> A Televisão Chamada Daiana

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Meu nome é Charles, moro em uma pequena cidade de um país qualquer do planeta Terra. Minha mãe me criou sozinha até os dez anos de idade. No início eu ficava em uma creche, depois comecei a ficar sozinho em casa e às vezes saía para a rua para brincar e explorar a mata que ficava próxima à minha casa. Além de jogar videogame em uma locadora na minha rua, também ia à escola, como qualquer outra criança. Não me lembro bem quando, mas minha avó veio morar conosco; até construíram uma casa para ela no fundo do pátio da casa da minha mãe. Era uma época feliz. Mas então, minha mãe trouxe para morar com ela um padrasto. Até tentei lidar com isso, mas era impossível, pois o mesmo não gostava de mim e fazia o possível para dificultar minha vida. Minha mãe mudou; antes parecia me amar mais, mas ela teve dois filhos com o padrasto e parece que eu não era bem-vindo àquela família. Ficou pior: comecei a trabalhar, sair, beber e usar drogas. Acabei me retirando do convívio com a família que minha mãe formara e me isolei em meu quarto. Era eu e o meu mundo: as músicas que ouvia, meus amigos, meus jogos e minhas namoradas. Ah, claro, e as drogas e bebidas. Parecia uma vida normal, com algumas exceções que me faziam desconfiar que não era bem o que eu pensava. Falando em pensar, sempre tive problemas com meus pensamentos; era como se eu não conseguisse controlá-los ou se eles fossem gerados sem minha vontade, e às vezes parecia que as pessoas ao meu redor até ouviam o que eu estava pensando, algumas até pareciam induzi-los. Mas até então eu não tinha certeza; era uma suspeita e eu não conseguia entender ou conceber o que realmente estava ocorrendo. E isso era só uma dentre tantas coisas que ocorreriam. Certa noite, quando fui a um show de rock, vi uma garota virando uma garrafa de dois litros de vinho, e eu senti imediatamente o quão importante foi aquele momento; era como ver um espelho onde minha imagem refletida era uma mulher. Pensei ser minha alma gêmea, meu amor; era ela bem ali diante de mim. Nada mais importava. O que senti foi como se minha vida tivesse me levado até aquele momento para mostrar o que ela significava. Mas não fui falar com ela, pois estava acompanhada, porém algo estranho começou a acontecer. A cada vez que saía para alguma festa, ela também estava lá, o que não acontecia antes, até quando ia pegar o ônibus. Como se aquela fosse sua rotina de sempre, mas isso não acontecia antes; só começou a ocorrer depois de conhecê-la. Começamos a conversar e nos conhecer melhor e então tive certeza de que era quem eu pensava. Logo começamos a namorar, mas tinha um pequeno problema: ela queria liberdade para ficar com quem quisesse. No começo até entendi e, como não me prendia a costumes sociais e não era seu dono, continuamos. Ela me contava de suas saídas e encontros com outras pessoas, mas eu sentia — algo em mim sentia — que ela estava mentindo, que era só uma história inventada e que ela não fazia aquilo. E apesar de eu também poder ficar com quem quisesse, eu não o fazia, pois ela me completava e eu não precisava de mais ninguém. Apesar de isso ter sido a melhor coisa que aconteceu na minha vida até então, eu comecei a pensar diferente, comecei a duvidar do que sentia sobre ser mentira suas histórias com outros e comecei a querer que tivéssemos justamente um relacionamento como dita o costume social. Mas ela não aceitou isso. Então paramos de namorar, mas ela ficou sempre dentro do meu coração e seguimos nossas vidas. O que se pode dizer é que não foi algo feliz. Eu disse que sentia que as coisas não eram bem o que pensava e isso ficou cada vez mais evidente. Eu me distanciei mais da minha mãe e cada vez bebia mais e usava mais drogas. Não conseguia mais trabalhos e começara a ficar sem dinheiro, mas eu precisava de dinheiro para continuar comprando mais drogas. Foi então que tive uma ideia, mas antes dessa ideia, havia ocorrido algo que não consigo lembrar muito bem. O que me lembro era da imagem daquela garota na minha televisão e parecia que ela falava comigo, falava sobre o mundo e sobre espíritos, mas não consigo descrever exatamente o que ocorria. Certa vez acreditei que, se contasse isso para minha família e isso se espalhasse por todo o planeta, tudo seria diferente, como se uma esperança de tornar um mundo antes ruim em algo que fosse bom para todos. E foi isso que fiz: falei para eles, mas não tornei o mundo melhor; pelo contrário, a partir daquele momento transformei minha vida no inferno que ela poderia ser. Simplesmente fui tomado como louco e ninguém pareceu acreditar em mim ou admitir que o que eu dizia fosse possível. A sensação era de que isso era um segredo que não pudesse ser revelado, e eu até tenho a vaga lembrança de que ela tentou me alertar sobre isso e que, ao contrário ao que ela dizia e acreditando que o mundo fosse ficar melhor, fiz mesmo assim. Depois disso não conseguia mais vê-la e falar com ela. Mas algumas coisas estranhas começaram a aparecer na TV e nas pessoas, como se elas fizessem uma espécie de careta quando eu não estava vendo. Com isso minha mente foi se fragmentando, eu comecei a fazer coisas totalmente incoerentes e insanas, mas a ordem cronológica talvez não seja bem essa... Pois quando tive aquela ideia que resolveria meu problema com dinheiro, não sei se foi antes ou depois disso, a ideia parecia simples: eu pegaria um dinheiro emprestado com o padrasto e deixaria minha TV com este, até que pudesse pagá-lo. Era simples, mas não foi, pois com o dinheiro eu comprei material e ferramentas para fazer artesanato e logo comecei a ganhar algum dinheiro com o que produzia, mas não ganhava o suficiente para comprar drogas e guardar para pagar o empréstimo ao padrasto. E o tempo foi passando, a vida foi ficando mais difícil, eu não me importava mais em pagar o empréstimo e recuperar minha TV, pois não me lembrava mais daquelas coisas estranhas que ocorreram, não me lembrava mais daquela garota. Passei por internações psiquiátricas, comecei a tomar remédios, não tinha mais amigos, os lugares onde ia deixaram de existir, as pessoas que faziam parte daquele meu mundo não eram mais vistas. Morei na rua, em casas de amigos, pensões e ficava pouco tempo trabalhando, até que, morando em outra cidade, estando com outra mulher, ainda usando drogas, mas fazendo tratamentos psiquiátricos e no fundo ficando com a dúvida sobre o que era verdade em minha vida e com fragmentos das lembranças retornando, tive outra ideia. A minha TV estava na sala, só estávamos eu e minha mãe, e ela estava no pátio. Eu peguei e derrubei a TV no chão; de alguma forma eu acreditava que aquele objeto era algo além do que fui levado a crer, e que era usado para me aprisionar em uma realidade falsa e me controlar para me fazer sofrer. Pensei que se eu o quebrasse estaria livre, mas não quebrou; só trincou o plástico e ainda continuava funcionando. Logo depois estava com outra televisão, e pedi ao padrasto que devolvesse a minha que estava na sala quebrada e ainda funcionando, e ficasse com a que era que minha mãe havia comprado. Meu padrasto aceitou, devolveu minha TV e eu pensei que estava tudo resolvido, pois se a causa dos meus problemas foi ter deixado a TV como garantia de um empréstimo, tê-la recuperado colocaria um fim nessa história. Claro que isso não era o fim; logo minha TV parou de funcionar. Eu então a joguei da janela do segundo andar e depois joguei uma pedra em sua tela; a última coisa que ouvi foi o som do gás saindo. Deixei os destroços onde ficaram e com o tempo logo não estavam mais lá. Depois comprei outras televisões, parei de usar drogas, consegui ter dinheiro e segui a vida com minha nova companheira, e o padrasto morreu. Voltamos para a casa da minha mãe, continuei meu tratamento psiquiátrico e construímos uma casa para mim nos fundos do pátio da minha mãe. Parece um final feliz, não? Mas ainda não é o fim: estou com 40 anos, então posso dizer que esta é apenas a metade da história. As coisas estranhas, durante todo esse tempo, não pararam; pelo contrário, começaram a ficar mais estranhas: vozes, coincidências improváveis, pessoas falando coisas incoerentes e muito mais. E durante esse tempo, eu fui registrando o que ocorria, estudando o que poderia ser, e encontrei diversas hipóteses, pois parece que pessoas e espíritos me atacam e tentam me manter alienado a isto, ou sem estar consciente com relação a isso. Eu sei que ela seguiu sua vida, mas não sei nenhum detalhe além de que está bem. Eu também, tenho uma outra mulher, que aparece no meu celular quando ligo para ela. Uma das coisas que eles alegam é que aquela garota era a televisão que destruí, o que é bem estranho. Mas a verdade é que televisões, rádios, celulares são apenas dispositivos com possibilidades além das quais a sociedade admite, e esse é o segredo.

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